6# MEDICINA E BEM-ESTAR 19.11.14

     6#1 COMO VAI A SADE DO SEU CREBRO?
     6#2 O REMDIO BRASILEIRO CONTRA A AIDS

6#1 COMO VAI A SADE DO SEU CREBRO?
Comeam a surgir no Brasil e em outros pases os servios de check-up para detectar e corrigir deficincias de memria, concentrao e ateno. Os exames tambm ajudam a prevenir doenas neurodegenerativas como o Alzheimer
Mnica Tarantino (monica@istoe.com.br)

Inspirados nas recomendaes que levam milhares de pessoas ao cardiologista ou ao clnico para conferir, anualmente, como est a sade do corao, neurologistas e pesquisadores do crebro desenvolveram um corpo de testes destinado a proteger a sade cerebral e preservar funes cognitivas como a memria, a ateno, a capacidade de se concentrar e o tempo de reao. Essa nova abordagem, nutrida em centros de pesquisa e universidades como Pittsburgh, Yale e Harvard (EUA), e Melbourne, na Austrlia, comea a se disseminar pelo mundo. Esse conjunto de testes identifica a presena de alteraes cognitivas. Alguns tambm podem ser usados para treinar o crebro a super-las, disse  ISTO David Darby, que dirige o Instituto Florey de Neurocincias e Sade Mental da Universidade de Melbourne. Darby  uma referncia mundial no estudo do impacto das mudanas neurolgicas no comportamento e um pioneiro no desenvolvimento dos jogos computadorizados para avaliar as funes cerebrais.

Iniciativas com esse direcionamento proliferam na Europa, nos EUA e no Brasil. Centros de memria antes frequentados somente por idosos com demncia ou Alzheimer agora comeam a ser visitados tambm por uma populao mais jovem interessada em preservar e melhorar a sua performance cerebral. Recebemos desde atletas que sofreram concusso cerebral at jovens com problemas de concentrao que querem saber o que a cincia oferece a eles, diz a neuropsicloga Mariana Assed, do Servio de Psicologia e Neuropsicologia do Hospital das Clnicas de So Paulo, onde est sendo montado um centro de avaliao em moldes semelhantes ao da Universidade de Melbourne. Estamos reunindo jogos e outros testes para melhorar o diagnstico de alteraes cognitivas e psiquitricas, explica Mariana.

Um dos alvos do check-up cerebral  ampliar o acesso  chamada reserva cognitiva. Trata-se da capacidade de o crebro buscar novos caminhos para usar seus recursos. Na prtica,  a agilidade para acionar uma via alternativa e seguir em frente se o caminho principal at uma informao  como uma palavra que teima em desaparecer no meio da conversa  encontra-se bloqueado ou desativado. Estudos apontam que pessoas com maior poupana cognitiva contornam melhor suas deficincias. Uma dessas constataes foi publicada pela revista Neurobiology. Uma investigao de cientistas americanos, italianos e srvios ligados  Fundao Kessler concluiu que a existncia de uma reserva mais robusta ope maior resistncia  progresso das perdas cognitivas at mesmo em pacientes com doenas degenerativas, como a esclerose mltipla.
Em So Paulo, outro servio de check-up cerebral, o Centro Neurability de Avaliao e Treinamento da Performance Cerebral, atua de acordo com os mais recentes achados da neurocincia. Inaugurado h um ano, o local rene psiclogos, terapeutas, neuropsiclogos, mdicos do esporte e neurologistas. Est provado que o crebro pode ser reconfigurado a partir de suas reservas cognitivas.  nessa fronteira da cincia que estamos trabalhando, diz o neurologista Jorge Pagura, do Hospital Israelita Albert Einstein, em So Paulo, e um dos integrantes do grupo de profissionais do centro.

Ali tm sido examinados, por exemplo, atletas do futebol feminino, jogadores de vlei e boxe e indivduos com queixas leves ou mais complexas de memria. Foi o que aconteceu com Luiz Carlos Moraes Rego, 81 anos, de So Paulo. Especialista em engenharia automotiva pela Universidade de Michigan (EUA) e professor de Inovao da Fundao Getulio Vargas, h um ano e meio ele se aposentou e trocou as aulas pela atividade como palestrante, consultor e articulista da revista Inovao. Comecei a ficar preocupado com os esquecimentos e a dificuldade de me comunicar, diz. Aps se submeter a uma bateria de testes que confirmaram o problema, fez 13 sesses de treinamento para melhorar o uso de seu patrimnio cognitivo. Foi um excelente investimento. Parece que religuei o crebro, diz.

O publicitrio Fauze Jibran, 40 anos, submeteu-se ao check-up por curiosidade e ficou surpreso ao saber que sua memria de trabalho  guarda, por exemplo, nomes de pessoas a quem voc acabou de ser apresentado , estava abaixo do normal. Vimos que a ansiedade estava me prejudicando, conta. Ele foi orientado a modificar sua rotina para controlar o problema. As mudanas no estilo de vida me devolveram a agilidade mental.

PREVENO - O neurologista Okamoto, do Hospital Albert Einstein, planeja o lanamento de um pacote de exames para avaliar pessoas saudveis

No laboratrio do neurocientista Michael Collins, da Universidade de Pittsburgh (EUA), concentra-se a vanguarda dos estudos e tratamentos da concusso cerebral, o trauma provocado por choques ou pancadas que causam impacto na cabea. Suas pesquisas mostram que resultados normais dos exames de imagem no so suficientes para descartar uma avaliao das funes cerebrais de pessoas que bateram a cabea. Treinamentos especficos melhoram esse quadro, assegura Collins.

A designer Karoline Gebrael, 32 anos, de So Paulo, beneficiou-se dessa nova forma de tratar sequelas. H um ano, ela sofreu um acidente de carro, mas aparentemente no teve sequelas. Com o tempo, passou a ter dores de cabea constantes, cansao e dificuldade para se concentrar no trabalho. Meu desempenho estava abaixo do que sei que posso, diz. Karoline submeteu-se aos testes de avaliao neurocognitiva. O crebro dela ainda se ressentia do impacto sofrido h tanto tempo, diz o mdico Ricardo Eid, coordenador do Ambulatrio de Concusso da Universidade Federal de So Paulo e um dos idealizadores do Centro Neurability.

Por ser esse um campo do conhecimento ainda em construo, um dos questionamentos  se o check-up pode ser um recurso para melhorar a identificao de pessoas com declnio cognitivo leve ou at sem sintomas que indiquem o risco de demncia e Alzheimer. A prtica mostra que sim. Nos casos em que houver um prejuzo mais acentuado da memria e de outras funes a indicao  realizar exames mais complexos para avaliar sua condio neurolgica, afirma o pesquisador Ivan Okamoto, da Universidade Federal de So Paulo e diretor do Centro do Crebro e Memria do Hospital Israelita Albert Einstein, em So Paulo. Ele v com bons olhos o uso dos testes para analisar as funes cerebrais, ajudando, dessa maneira, na deteco de eventuais problemas. Ainda que seja tnue a linha divisria entre as perdas prprias do envelhecimento e quadros iniciais de demncia, sabemos que intervir precocemente pode retardar os sinais das doenas degenerativas, afirma.

Okamoto chama a ateno para o fato de que  urgente aumentar o acesso ao diagnstico no Pas. Aqui, apenas 11% das pessoas com a doena de Alzheimer esto em tratamento e estima-se que 90% dos pacientes no tenham diagnstico, destaca. O mdico planeja lanar nos prximos meses um pacote de exames para o pblico saudvel com foco na preveno.

EXAME - A neuropsicloga Mariana Assed (na foto, atrs) usou testes 3D para livrar a designer Karoline da dor de cabea e da falta de ateno

A aplicao dos testes (leia mais sobre eles no quadro ao lado) encontra suporte nos diversos estudos que buscam decifrar como os nossos neurnios se conectam uns aos outros e quais estmulos reforam ou enfraquecem essas ligaes. Entre eles esto os que avaliam testes neurocognitivos de computador e os chamados neurogames. Publicada na revista Nature, uma pesquisa recente feita com 40 pessoas com idade entre 60 e 85 anos mostrou, por exemplo, a eficincia de um jogo desenvolvido pela Universidade da Califrnia, o NeuroRacer. Ele  utilizado para incentivar a capacidade de executar diversas tarefas ao mesmo tempo, algo cada vez mais comum. Nele, o jogador pilota um carro por uma regio montanhosa por meio de um joystick. Ao mesmo tempo,  instrudo a apertar um boto apenas quando um sinal especfico aparecer na tela. O estudo forneceu uma evidncia poderosa de como a aplicao personalizada de um videogame pode ser usada para investigar as habilidades cerebrais e, ao mesmo tempo, como ferramenta para a melhoria cognitiva, diz o mdico Moacir Costa Neto, de Braslia. Ele foi aos EUA e  Austrlia conhecer os novos recursos contra as perdas neurocognitivas.

Outro trabalho, feito por cientistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, e publicado pela revista Molecular Psychiatry, investigou os efeitos de jogos de computador 3D sobre o crebro de um grupo de adultos que jogaram, por dois meses e durante 30 minutos por dia, o game Super Mario 64. Na comparao com indivduos que no passaram pela experincia, o que se viu foi um aumento nas dimenses de diversas reas cerebrais, como o crtex pr-frontal (ligado  tomada de decises e planejamento) e regies associadas  formao da memria e aos movimentos finos das mos.

Na opinio do mdico Paulo Bertolucci, chefe da Neurologia Comportamental da Universidade Federal de So Paulo, a popularizao dos check-ups e dos jogos para treinar as capacidades cerebrais  positiva. O crebro precisa ser to bem cuidado quanto o corao, afirma. Ele alerta, porm, para a necessidade de usar os recursos de forma individualizada. Jogos online ajudam a melhorar alguma coisa, mas  necessrio fazer essa atividade de modo orientado e com acompanhamento, recomenda.

Na Austrlia, o neurocientista Darby est justamente monitorando uma populao de voluntrios para afiar os critrios a serem usados nas avaliaes feitas pela internet. Hoje, quem acessa sites como o Lumosity, por exemplo, ser encaixado em padres diagnsticos bastante abrangentes. O que Darby quer  criar condies para que o resultado obtido pelo internauta seja o mais especfico possvel. E assim ser possvel ampliar o uso dessa ferramenta e reduzir a chance de que ela deixe passar variaes que indiquem algo mais grave na sade do crebro, diz Darby. 


6#2 O REMDIO BRASILEIRO CONTRA A AIDS
Pesquisadores do Pas se preparam para testar em humanos medicamento que atinge o HIV escondido nas clulas - algo que nenhuma droga conseguiu fazer at hoje. A estratgia abre caminho para a cura da doena
Cilene Pereira (cilene@istoe.com.br)

O uso do coquetel de drogas contra o HIV, o vrus causador da Aids, prolonga a vida dos pacientes de forma espetacular. Mas no lhes garante a cura. A razo reside no fato de que, mesmo que a concentrao de vrus na corrente sangunea seja reduzida a nveis indetectveis, uma parte deles ainda est l, no organismo, escondida no que os cientistas chamam de esconderijos. Trata-se de clulas localizadas em pontos como o crebro nas quais o HIV permanece alojado, em estado latente e imune  ao dos medicamentos. A qualquer oportunidade, ele  reativado e inicia novamente sua cadeia de multiplicao. Destruir o vrus que est escondido, portanto, tornou-se um dos maiores desafios para vencer a doena definitivamente. No Brasil, um time de cientistas est somando vitrias nesse sentido. Depois de dois anos de pesquisa em animais, uma medicao desenvolvida pelos pesquisadores conseguiu tirar o HIV dos reservatrios, tornando-o finalmente vulnervel ao ataque das drogas antirretrovirais.

PROTEGIDO - O HIV permanece em estado latente em algumas clulas, imune aos remdios

A faanha  de autoria do farmacutico Luiz Francisco Pianowski, do Laboratrio Kyolab, e do pesquisador Amlcar Tanuri, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os dois coordenam os trabalhos, que incluem a participao de cientistas do Hospital Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e do instituto Aurigon, na Alemanha. O relato do que foi obtido at agora est registrado em publicaes cientficas como a revista americana Plos One e o jornal Aids.

A pea-chave para o sucesso observado at aqui do remdio criado pelos brasileiros  seu princpio ativo. Ele  extrado da planta aveloz, de origem africana e cultivada em alguns estados do Nordeste. O composto e seus derivados semissintticos demonstraram eficcia para deslocar o HIV adormecido das clulas que servem como seu esconderijo para o sangue. Os mecanismos que resultam nesse efeito no esto totalmente esclarecidos, mas o fato  que o vrus, antes latente, fica ativo novamente e cai na corrente sangunea, onde  combatido pelos remdios que formam o coquetel.

OTIMISMO - Tanuri coordena os estudos em animais que esto demonstrando a eficcia da medicao

O impacto foi constatado in vitro, em clulas de laboratrio e tambm em clulas extradas de pacientes com HIV. Depois, ficou evidenciado, em experimentos realizados com macacos Rhesus infectados pelo SIV, um tipo de vrus responsvel por uma infeco extremamente parecida com a causada pelo HIV  por isso,  usado como modelo padro de estudos em animais sobre a Aids. J foram realizados quatro investigaes usando as cobaias e uma quinta est em andamento. Em uma das pesquisas, dois macacos contaminados e no tratados receberam o remdio. Observou-se aumento da carga viral, mostrando que o vrus alojado nos reservatrios se deslocou para a corrente sangunea.

Outro teste com os macacos foi mais longe. Dois animais infectados e tratados com os remdios receberam a medicao durante 30 dias. Depois de 21 dias, houve o registro da elevao da concentrao de vrus no organismo, indicando que aqueles que estavam escondidos haviam ficado expostos. Aps um ms, todo o tratamento foi suspenso, inclusive as drogas antirretrovirais. Depois da suspenso, a concentrao viral permaneceu em nveis indetectveis por 47 dias. Nesse modelo, porm, o normal  que a carga viral volte a subir em menos de seis dias aps a retirada dos antirretrovirais, explica o pesquisador Tanuri. As investigaes executadas nos Estados Unidos e na Alemanha revelaram ainda que o remdio consegue atuar inclusive nos reservatrios localizados no crebro.

O momento atual da pesquisa  financiada pela Amaznia Fitomedicamentos   crucial para o futuro do medicamento. Nesse estudo com macacos, pretendemos estender a pesquisa at que zeremos os reservatrios virais, informou o farmacutico Pianowski. Ficaria assim comprovada, em laboratrio, a cura da doena, afirma. Depois dessa etapa, planeja-se a realizao de estudos clnicos, se possvel ainda no prximo ano. J fizemos todos os estudos toxicolgicos em ces e camundongos e dominamos a produo da molcula, complementa o farmacutico.

Na opinio do infectologista Edimilson Migowski, diretor-geral do Instituto de Pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o trabalho dos colegas brasileiros  realmente interessante. Ele se encaixa em uma linha de abordagem contra a doena que busca a sua cura, e no apenas o controle da multiplicao do vrus, como fazem hoje os antirretrovirais, afirma. Mas  necessrio lembrar que ainda  preciso muito mais estudo at que isso se torne uma realidade acessvel, ressalva. 

ATAQUE - Pianowski usa composto tirado da planta aveloz para acabar com os reservatrios virais


